Difundindo boas práticas e boas ideias

30/10/2012 – Ecovila ou empreendimento imobiliário?

Você sabe a diferença entre uma ecovila e um condomínio ecológico? Com esse tema em alta, muita gente ainda se confunde

PLANETA SUSTENTÁVEL

30/10/2012 às 09:07

Giuliana Capello

já vi casos de condomínios que usam o nome ecovila só porque o empreendimento está localizado perto de alguma área de natureza preservada. Não é bem por aí…

Vamos lá. Na verdade, são várias as diferenças, ainda que uma visita rápida possa mantê-lo com dúvidas. A primeira e mais marcante envolve os empreendedores do projeto. Num condomínio ecológico, normalmente temos a figura de uma construtora ou incorporadora, que compra o terreno, faz o planejamento e entrega as casas ou apartamentos prontos para morar. Os clientes, futuros moradores, ficam sabendo do projeto pela mídia, visitam o local e, quando gostam e podem arcar com o preço, fecham o negócio.

Já numa ecovila quem concebe o projeto e cuida de toda a infraestrutura é um grupo de pessoas (os fundadores), ou seja, trata-se de uma iniciativa de cidadãos comuns. Juntos, eles definem alguns valores e intenções para a jornada que estão prestes a iniciar. Em geral, são pessoas insatisfeitas com o estilo de vida que levam nas cidades ou mesmo na zona rural, e que buscam uma alternativa capaz de possibilitar um dia a dia menos impactante para o planeta, mais cheio de sentido e mais ligado solidariamente às pessoas.

Essa carta de intenções, que traz, no fundo, o propósito do grupo (ou seja, aquilo que irá mover as pessoas durante todo o desenvolvimento da ecovila), servirá para atrair novos integrantes, que também farão parte dessa construção coletiva do lugar. Como a relação com o meio ambiente é questão central, o planejamento do espaço também tenderá a ser feito coletivamente. Assim, as casas e espaços de convivência serão concebidos de maneira a integrar as pessoas e viabilizar o sonho de todos.

O financiamento das construções e demais intervenções pode ocorrer de diversas formas, com dinheiro de rateio do grupo fundador ou com ajuda, por exemplo, de instituições interessadas em transformar o lugar num centro de treinamento ou num espaço de demonstração de técnicas sustentáveis. Cada grupo terá de encontrar sua fórmula própria.

Outra característica marcante envolve o desejo efetivo de mudar o estilo de vida, buscando novas maneiras de vinculação comunitária e também de interação com o meio ambiente. É assim que, comparando com as áreas sociais dos condomínios convencionais, as ecovilas incluem itens, digamos, mais curiosos e todos eles de uso comunitário: lavanderia, horta, biblioteca, centro comunitário (que abriga cursos, eventos, festas etc.), ferramentaria, bicicletário e até garagem (quando os veículos ficam disponíveis para todos).

Tais espaços refletem o objetivo dos moradores de compartilhar bens, evitando ou reduzindo a necessidade de cada família ter o seu carro particular, a sua tv, a sua máquina de lavar roupa, os seus livros e assim por diante. A economia ganha aqui um caráter de dádiva, de solidariedade. O consumo é reduzido pela partilha de bens que circulam entre várias pessoas, o que permite uma queda considerável na pegada ecológica das famílias, além da possibilidade de trabalhar menos, já que dá para viver bem com menos dinheiro.

Mas o ponto mais importante e que abre um abismo entre uma ecovila e um condomínio residencial convencional leva o nome de comunidade. Não se trata de comunidade no sentido mais antigo, de uma comunidade homogênea, da qual as pessoas fazem parte porque nasceram dentro delas, como aldeias indígenas, vilas tradicionais no Oriente e por aí vai. A grande diferença é a vontade de ser parte de uma comunidade, a vontade de construir uma comunidade a partir de propósitos comuns, de objetivos e visões de mundo. Ainda que as pessoas sejam diferentes e tenham experiências de vida muito diferentes, elas se unem porque acreditam na construção coletiva de um jeito novo de viver – e sabem que juntas o sonho terá mais chances de se tornar algo palpável e gratificante.

Uma ecovila é feita de pessoas que aceitam trocar olhares, sentimentos, sonhos, conflitos. É diferente de um condomínio em que, se você quiser, pode entrar no elevador sem trocar uma palavra com o vizinho, ou passar anos sem saber o nome da pessoa que mora no apartamento ao lado do seu. Numa ecovila, as pessoas se conhecem e, ao contrário, às vezes é preciso conter a abertura social em nome da própria privacidade…

Comunidade implica confiança no outro, vontade de realizar junto, de trabalhar pelo bem de todos. Valores como simplicidade, solidariedade, respeito ao meio ambiente e cuidado com as pessoas costumam fazer parte de uma ecovila, e são tão ou mais importantes do que as técnicas construtivas que foram escolhidas para as casas, ou o sistema ecológico de esgoto, ou a turbina eólica que fornece energia limpa aos moradores.

Se a parte técnica fosse o pilar de uma ecovila, então o conceito seria outro, pois caberiam nesse grupo empreendimentos imobiliários com selo de construção sustentável, por exemplo. Não é isso. O mais desafiante é conquistar relações interpessoais mais saudáveis, agradáveis e, exatamente por isso, mais sustentáveis. Para isso, não há equipamento high tech que dê jeito. É preciso vontade, persistência e uma boa dose de fé na humanidade…

Em 1998, as ecovilas foram declaradas pela ONU como uma das 100 melhores práticas para o desenvolvimento sustentável, eleitas como excelentes modelos de vida sustentável. Há uma lição interessante nisso e vale a pena observar as ecovilas para saber de que maneira você pode levar um pouquinho do espírito delas para o lugar onde você mora. Acredite: por trás do jeitão fechado de muitas pessoas, existe alguém esperando por um ‘bom dia’ com um sorriso sincero, uma gentileza, uma troca amigável, um presente que chega fora de datas especiais.

Lembro-me bem do que ouvi da querida Lois Arkin, uma das fundadoras da Los Angeles Ecovillage (ecovila urbana na Califórnia, EUA). Quando eu ainda vivia em São Paulo, conheci Lois num encontro de ecovilas e perguntei a ela o que eu poderia fazer para transformar a vila de oito casas onde eu morava numa ecovila. Eu esperava, na época, que ela fosse detalhar estratégias para tornar as casas mais ecológicas ou sugerir mais árvores, enfim, coisas desse tipo. Mas ela me surpreendeu. Olhou para mim sorrindo e me disse: “No próximo domingo de sol, coloque uma mesa bem bonita no pátio da vila, cheia de frutas, sucos, pães caseiros e flores, e convide os vizinhos para o café da manhã”.

Vídeo: “http://player.vimeo.com/video/12859157” – café da manhã em Los Angeles Ecovillage…

Lições de uma ecovila alemã

Giuliana Capello – 23/10/2012 às 10:56


Foto: Dentro da fazenda, cavalos substituem veículos movidos a combustíveis fósseis, ajudam no trabalho no campo e são adorados pelas crianças da comunidade…

Muita gente já se aventurou em criar um conceito para as ecovilas. Por mais que tenhamos boas tentativas, a diversidade de grupos, culturas, lugares e experiências tem tornado difícil concebê-las em poucas palavras. Seja como for, é de se esperar que toda ecovila (para justificar o prefixo “eco”) tenha em vista algumas metas de redução dos impactos que elas geram no meio ambiente e na sociedade, mantendo sempre no horizonte a intenção de se estabelecer como um assentamento humano que seja modelo em sustentabilidade.Sieben Linden, na Alemanha, é uma das ecovilas com metas claras para aprimorar o nível de sustentabilidade da comunidade. Desde os primeiros encontros entre seus idealizadores, ainda em 1986, eles já falavam em geração de energia limpa e construções com materiais e técnicas mais ecológicos.

Seus primeiros moradores alojaram-se em trailers de circo (alguns moram assim até hoje) e começaram a construir as primeiras casas, que deveriam equilibrar na balança duas premissas importantes: a pressa em construir o sonho e os altos critérios inseridos no “código de construção civil” da ecovila. O resultado é que, com o passar do tempo e a experiência do grupo, os prédios foram ficando mais e mais radicais em termos de design e construção, absorvendo o conhecimento conquistado por eles.

Um desses prédios foi todo construído com a técnica do straw bale (fardos de feno com reboco de terra crua), usando madeira, terra e outros produtos coletados no próprio local (uma fazenda, na época de 22 hectares, e que hoje cresceu para mais de 40 hectares, sendo que uma área de floresta ocupa mais da metade da propriedade). Tudo foi feito artesanalmente pelos próprios integrantes da ecovila, com a ajuda de cavalos, que dispensaram o uso de ferramentas elétricas.

Deu tão certo que Sieben Linden, após enfrentar inúmeros obstáculos burocráticos, conseguiu cavar um espaço para algumas mudanças nas regras alemãs de construção, que pudessem tornar mais fácil e mais barato construir com a técnica dos fardos de palha – que, aliás, são excelentes quando o assunto é conforto térmico e acústico.

Energia também é coisa série em Sieben Linden. Painéis fotovoltaicos geram energia solar, que é transformada em energia elétrica e trocada com a rede pública (eles vendem o excedente produzido). A água quente também vem das placas solares e o aquecimento interno das casas é feito com madeira cortada da própria floresta da comunidade, com cuidados no manejo, é claro.

Um dos pontos fortes da ecovila é a produção de alimentos. A comunidade é 75% autossuficiente em vegetais e compra seus grãos e outros alimentos de uma rede de produtores e fornecedores de orgânicos que ela mesma ajudou a criar.

No livro Ecovillages, New Frontiers for Sustainability, o autor e educador de sustentabilidade Jonathan Dawson menciona uma pesquisa feita pela comunidade, em parceria com a Universidade de Kassel, que mostrou que Sieben Linden tem tido um grande sucesso na criação de um assentamento de baixo impacto socioambiental. Lá, eles descobriram que as emissões de CO2 representavam, per capita, apenas 18% da média alemã. Em aquecimento e habitação, os resultados foram ainda melhores: 10% e 6%, respectivamente.

Atualmente, a ecovila tem cerca de cem moradores, distribuídos em pequenas vizinhanças que ajudam a tornar as tomadas de decisões do grupo mais fáceis e ágeis. E imagine: uma das metas da ecovila é criar estratégias para disseminar suas experiências e valores a um número cada vez maior de pessoas ligadas ao mainstream, aumentando a oferta de cursos de treinamento em sustentabilidade.

Difundir boas práticas e ideias é vocação natural das ecovilas, que não têm mais aquele olhar de criar ilhas ou pontos isolados dentro de uma sociedade caótica e cheia de problemas. Ao contrário, o lema agora é pulverizar o planeta com bons exemplos que podem impulsionar uma mudança muito maior, mais abrangente e significativa. Fique de olho!

Fonte: PLANETA SUSTENTÁVEL

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