>Ainda somos românticos, sofremos vazio gerado pela abstração

>Por Danielle Denny

Quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Em artigo de 1970, na revista Cavalo Azul, intitulado “A alma vendida”, Vilém Flusser examina o Romantismo alemão para concluir que o espírito romântico sobrevive na contemporaneidade, sobretudo na cultura alemã.

O Romantismo se opõe ao ideal racionalista que promoveu o desencantamento do mundo ao romper o vínculo dos seres humanos com o sobrenatural. Os românticos propõem um tipo novo de encantamento, por meio das abordagens sobre o inconsciente. Kant fez do mundo uma ilha da razão cercada de águas desconhecidas por todos os lados. Os românticos vão em busca do desconhecido dessas águas.

Postulam que a humanidade não é constituída apenas de razão. Podemos simplesmente sentir, perceber algo, sem traduzir isso para o campo da lógica. Os sentimentos, a imaginação, o idealismo, a misticidade, a atração pela Natureza são inclusive fundamentais na constituição da essência humana. E esse íntimo, essa vida interior, precisa ser revelada pelo autoconhecimento que justifica a conduta introspectiva, marcada pelo crepúsculo e pelo mistério, adotada pelos românticos.

Flusser apresenta as circunstâncias políticas, sociais e econômicas em que surgiu o Romantismo com sua impressionante capacidade de sintaxe que irrita os intelectuais superciliosos, para usar uma expressão de Haroldo de Campos. Verborragia, e os arcabouços mirabolantes de linguagem, para Flusser, servem só para proteger a linguagem da insignificância da língua. Muita comunicação gera muita redundância e pouca informação. Flusser quer, pelo contrário, escrever com muita informação, pouca redundância, suscintamente, em linguagem quase poética.

Como raiz do Romantismo, Flusser aponta o “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto) pré romantismo alemão, movimento radical, ao qual pertence “Werter”, romance epistolar de Goethe, que provocou onda de suicídio na Alemanha. Ressalta que, na época, a Alemanha, ainda não unificada, estava de fora da corrida imperialista na África e Ásia, que fundamentava as relações econômicas, políticas, sociais e culturais dos países vizinhos. Assim, os alemães se sentiam párias do processo de desenvolvimento.

“a geração alemã nascida em tôrno de 1770 sentia não apenas ser ela uma geração perdida, mas ainda produtora de tôda uma série de gerações perdidas, e isto a despeito do esfôrço sem paralelo da geração precedente. O romantismo alemão é a resposta a essa sensação desesperada.”

O Romantismo possibilitou o encapsulamento da burguesia alemã em uma realidade diferente da dos países vizinhos e caracterizada por um processo psicológico alienante de busca do inconsciente, dos sonhos, dos desejos, das fantasias. E faz isso por meio da saudade.

“Saudade da religiosidade católica medieval, da grandeza imperial, da pureza ingênua germânica, da simplicidade rural, da vida eufórica e trágica dos antigos (…) Mas esta saudade não visa um passado real, (…) Visa, pelo contrário, um passado fantástico, utópico (…) A saudade não se dirige para uma restauração do passado, mas para a instauração da fantasia. A saudade romântica é poesia”

E esse espírito romântico sobrevive na contemporaneidade. Até dadaístas do Cabaret Voltaire, em seus diários, se perguntavam: será que não continuamos e permanecemos românticos? Todas as utopias são românticas. Nos românticos a forças do subconsciente eram indomadas, depois Freud e Jung tentam domar essas forças. Seria como se os românticos tivessem descoberto a energia atômica e futuramente, até hoje, os pesquisadores tentam controlar essa energia, pesquisando usinas nucleares.

Além disso, saudade é o que move nosso tempo. O virtual é uma variante da ausência e a abstração gera um vazio. Tudo que é abstrato causa mal estar de não ser palpável. Fica oco. No nosso tempo de alta virtualidade esse vazio é tremendo.

“Os românticos venderam sua alma, para que nós possamos salvar a nossa. Por isto lhes devemos gratidão, admiração e humildade. Esposaram a loucura para a sanidade (no sentido de salvação), de nós outros”

Bibliografia

FLUSSER, Vilém. A alma vendida. Cavalo Azul, (6),88-93, nov. 1970

SAFRANSKI, Rüdiger. Romantismo, uma questão alemã. Editora Estação Liberdade. 2010

SANTANA, Ana Lucia. O Romantismo Alemão. Disponível em . Acesso em: 31 de outubro de 2010.

FEDELI, Orlando. Origens do Romantismo Alemão. Disponível em: . Acesso em: 31 de outubro de 2010.


Danielle Denny participa do grupo de estudos sobre Vilém Flusser, do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, http://www.cisc.org.br/html/index.php, o presente texto é uma ata das discussões travadas durante o quinto dos oito encontros que serão realizados em três universidades durante o segundo semestre de 2010.

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